Quando a chuva falta, o sol vira aliado de agricultores em Roraima

Quando a chuva falta, o sol vira aliado de agricultores em Roraima

A série ‘Luz nas respostas’ foi realizada pela equipe do Amazônia Vox em coprodução com comunicadores nos territórios, contando com apoio da 350.org Brasil e da Rede Conexão Povos da Floresta. 

Com características semelhantes à vegetação de cerrado, as áreas de lavrado em Roraima são fáceis de identificar: campos abertos e árvores baixas, bem diferente do cenário de florestas densas que formam a imagem geral do bioma Amazônia. Ali, o impacto do sol é ainda maior para a agricultura, sobretudo familiar: ao mesmo tempo que se apresenta como ameaça, pode também ser ferramenta. 

Em períodos de estiagem, o calor acelera a perda de umidade do solo e aumenta a necessidade de água para as plantas. Mas, para agricultores da região do Murupu, na zona rural de Boa Vista, capital de Roraima, o mesmo sol que castiga e intensifica o calor é também utilizado como fonte para produzir a energia necessária à irrigação.

Desde 2022, sistemas de irrigação fotovoltaica começaram a ser instalados na zona rural e em comunidades indígenas do município. Hoje, são 156 sistemas instalados, conforme balanço divulgado em agosto de 2026. 

A  instalação desses sistemas é uma iniciativa do Plano Municipal de Desenvolvimento do Agronegócio (PMDA). Com essa energia, os pequenos produtores realizam o bombeamento de água, o que mantém cultivos durante períodos de pouca chuva, reduz gastos com a necessidade de energia – com altas contas da distribuidora ou geradores a diesel – e amplia a área plantada.

A tecnologia diminui a dependência das chuvas e cria uma margem de segurança para quem vive da agricultura, especialmente em períodos mais críticos, como os associados ao fenômeno El Niño, previsto para ser ainda mais intenso e prolongado este ano, o que exige políticas públicas específicas. 

Em setembro de 2026, todo o território de Roraima registrou seca, segundo o Monitor de Secas, coordenado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA). Boa parte do estado enfrentou seca grave. Outra parte registrou seca moderada, enquanto uma pequena parcela apresentou seca classificada como fraca. 

Antes da instalação do sistema fotovoltaico, bombear água significava aumentar a conta de energia elétrica ou investir em geradores a diesel. Sem recurso, a alternativa era limitar o cultivo ou aceitar os períodos em que a chuva não era suficiente.

Agora, na propriedade de Edilson Pereira, de 53 anos, a irrigação já faz parte da rotina. Café, mamão, maracujá, milho, melão, melancia, abóbora e batata-doce estão entre os produtos que brotam do chão da propriedade.

Com as placas solares, o agricultor passou a utilizar a energia produzida no próprio terreno para movimentar o sistema de bombeamento e levar água às plantações. “Com as placas, eu consegui plantar mais. Planto o ano todo”, conta Edilson. 

A solução utilizada pelos agricultores combina diferentes componentes: placas fotovoltaicas, bomba para captação de água, sistema de filtragem e irrigação por mangueiras, incluindo o sistema de gotejamento. A energia produzida pelas placas alimenta o bombeamento e permite transportar a água até as áreas cultivadas.

Placas solares garantem uma irrigação mais eficiente, econômica e sustentável em Boa Vista (RR). Foto: Luana de Oliveira.

Uso antecipado evitou prejuízos e perda do plantio

A irrigação também permite que o agricultor organize o calendário de plantio com menos dependência do início das chuvas, que costuma ocorrer no mês de abril. 

Edilson esperava começar a utilizar o sistema com maior intensidade mais próximo do período tradicionalmente seco, mas o calor e a redução das chuvas anteciparam a necessidade. “O verão maltratou um pouco, pegou a gente de surpresa”, relata. 

A experiência de Edilson é reproduzida de diferentes maneiras em outras propriedades da região. Claudete Schievenin, de 64 anos, também dependia da chuva e enfrentava custos elevados para utilizar energia elétrica na irrigação. Sem água suficiente, precisava reduzir a área cultivada.

“Eu tinha que plantar muito pouquinho. Agora planto bastante”, afirma Claudete. Hoje, a agricultora cultiva cerca de dois hectares atendidos pelo sistema de irrigação. Para ela, a presença constante de água também influencia a qualidade da produção.

“Eu consigo plantar mais, vender mais, porque dá uma qualidade boa, que as frutas também têm água à vontade”. A agricultora comercializa parte da produção por meio de uma cooperativa, ampliando a possibilidade de transformar o cultivo em renda.


Com a irrigação movida a energia solar, a agricultora Claudete superou a escassez de água e hoje conseguiu ampliar sua produção. Foto: Luana de Oliveira

Manejo da irrigação é estratégico durante períodos de seca 

O agrônomo e professor da Universidade Federal de Roraima (UFRR), Wellington Farias, explica que temperaturas elevadas e forte incidência de radiação solar fazem o solo perder água mais rapidamente. A deficiência hídrica pode afetar desde a germinação até fases decisivas do desenvolvimento das plantas.

“Quando você tem muita insolação, temperaturas elevadas, o solo vai secar rapidamente. E para as culturas isso causa um certo dano”, explicou o agrônomo.

Segundo o professor, a água é fundamental durante todo o ciclo produtivo, mas algumas fases exigem atenção especial, como o florescimento e o enchimento de grãos em determinadas culturas.

“O produtor não tem como controlar o clima, mas, entendendo a irrigação, ele pode amenizar bastante esse processo de deficiência hídrica”, afirma Wellington.

Irrigação também necessita de cuidados para evitar novos problemas

Segundo Wellington, o manejo da irrigação é determinante para evitar desperdícios, pois o produtor precisa considerar a necessidade hídrica de cada cultura, a umidade do solo, a evapotranspiração e o momento adequado para repor a água. Na prática, isso significa definir quanto, quando e com que frequência irrigar.

Uma irrigação feita sem critério pode aumentar o consumo de água, elevar os custos de produção e até carregar nutrientes para além da região ocupada pelas raízes.

“Se eu irrigar de qualquer maneira, eu posso perder ou estar jogando água, perder a água em si. Vou aumentar meu custo de produção e, além disso, ainda vou levar nutrientes para além das raízes das plantas”, explica.

Dados da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico mostram que a agricultura irrigada responde por 50,3% das retiradas de água no Brasil em 2024. Ou seja: a irrigação pode ser parte da resposta à estiagem, mas precisa estar acompanhada de eficiência no uso do recurso.


O sistema inclui irrigação por mangueiras e gotejamento, movido a energia solar, para molhar as áreas cultivadas com eficiência. Foto: Luana de Oliveira.

Durante o período em que a radiação solar está disponível, o sistema produz energia que pode ser utilizada para levar água à lavoura. Para Edilson, essa mudança representou uma redução significativa nos gastos com eletricidade.

Antes, cada hora de funcionamento da bomba representava consumo de energia da rede. Com o sistema fotovoltaico, a fonte de energia utilizada para o bombeamento passou a ser o sol. Caliel Pereira, de 20 anos, trabalha com Edilson e diz que a expectativa era de que o período chuvoso durasse mais, mas com a antecipação da estiagem, as placas precisam começar a ser utilizadas antes do planejado.

“A irrigação ajudou muito a nós, porque não está chovendo nesses tempos. Não teve o inverno que nós imaginávamos e daí nós tivemos que usar as placas solares mais cedo”, relata o produtor.


Caliel diz que a irrigação movida a energia solar ajudou a mitigar os impactos de um período chuvoso mais curto este ano. Foto: Luana de Oliveira.

Segundo informações da Prefeitura de Boa Vista, os sistemas do Plano Municipal de Desenvolvimento do Agronegócio (PMDA) são destinados a agricultores selecionados dentro das ações de apoio à produção rural. Diante de uma estiagem que chega mais cedo, isso significa ter uma alternativa disponível antes que a falta de chuva comprometa completamente a lavoura.

A iniciativa reúne três elementos que podem ser considerados em outras propriedades rurais: energia solar, irrigação e manejo eficiente da água. O primeiro reduz a dependência da eletricidade convencional para o bombeamento ou uso de geradores a diesel, mais poluentes e com alto custo com combustível fóssil. Em Boa Vista, o litro do diesel comum chega a custar mais de R$ 7 reais – e o gerador, por sua vez, é vendido por R$ 1.100,00 a R$ 6.500,00, dependendo do modelo, marca e da potência. 

Já a irrigação permite ao agricultor manter a produção mesmo quando a chuva não é suficiente. E o manejo da água é o que determina se a solução será realmente sustentável no longo prazo.

Por isso, a expansão de sistemas desse tipo precisa considerar a disponibilidade de água, a capacidade de reposição dos mananciais, as características de cada cultura e o manejo utilizado pelo agricultor.

O programa tem continuidade por meio de editais públicos que selecionam agricultores familiares para receber sistemas de irrigação com energia fotovoltaica, contemplando tanto a agricultura convencional quanto a agricultura indígena, em comunidades indígenas de Boa Vista. 


Edilson Pereira utiliza irrigação movida a energia solar para manter a produção agrícola durante períodos de estiagem na região do Murupu, zona rural de Boa Vista (RR). Foto: Luana de Oliveira.

Texto de Luana de Oliveira (Roraima). Edição e mentoria: Alice Martins Morais. Revisão: Daniel Nardin. Fotos de Luana de Oliveir

Leia mais sobre a Série no link:

http://amazoniavox.com/noticias/view/731/pt-br/serie_mostra_como_a_energia_solar_mudou_a_vida_de_pessoas_na_amazonia_e_quais_desafios_permanecem

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