Fenômeno El Niño severo ameça o clima e a economia agrícola em Roraima

Fenômeno El Niño severo ameça o clima e a economia agrícola em Roraima

Jacildo Bezerra – Da Redação

A previsão meteorológica para a capital Boa Vista e regiões circunvizinhas aponta para a manutenção de um padrão térmico e pluviométrico severamente alterado pela atuação do fenômeno El Niño. O cenário diário é marcado por manhãs de sol intenso, aumento gradativo da nebulosidade ao longo do dia e pancadas de chuva isoladas no período da tarde, seguidas por noites com muitas nuvens, mas sem volume significativo de precipitação. As temperaturas oscilam entre mínimas de 27 °C e máximas que alcançam os 39 °C, combinadas a um índice de radiação UV elevado que exige atenção redobrada da população.

Apesar das pancadas pontuais registradas, o quadro meteorológico geral do estado acende o sinal de alerta máximo. O aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico Equatorial desorganiza a circulação atmosférica global e reduz a precipitação no extremo norte do Brasil, projetando reduções de até 200 mm de chuva no período e a consequente queda acelerada na calha de rios fundamentais como o Rio Branco. Essa combinação de altas temperaturas e escassez prolongada de água atinge diretamente a população e compromete os dois pilares produtivos do agronegócio roraimense: a agricultura e a pecuária.

Na agricultura, os produtores rurais de pequenos e grandes cultivos enfrentam perdas quantitativas e qualitativas substanciais. A ausência de umidade durante as fases críticas de germinação e enchimento de grãos provoca a queda no rendimento por hectare e ameaça provocar a perda total de safras em áreas não irrigadas de culturas como soja, milho e arroz. O atraso na definição da estação chuvosa também desregula a janela ideal de semeadura, enquanto o uso da irrigação se torna mais caro e limitado devido ao rebaixamento de poços artesianos e igarapés. Paralelamente, o solo ressecado fica exposto à compactação, perda de matéria orgânica e erosão eólica.

A pecuária de corte e de leite sofre impactos igualmente severos com o esgotamento dos pastos nativos e cultivados. Sem forragem de qualidade, o rebanho gasta mais energia para buscar alimento e água, resultando em perda acelerada de peso, queda na produção leiteira e menor taxa de prenhez devido ao estresse térmico e nutricional das matrizes. A seca de açudes e cacimbas exige a perfuração emergencial de poços ou o transporte de água por caminhão-pipa para conter a mortandade do plantel, elevando os custos operacionais com a compra de ração concentrada e suplementação mineral.

Além do estresse hídrico no campo, o El Niño impõe riscos transversais graves a todo o estado de Roraima. O acúmulo de biomassa seca intensifica o risco de queimadas e incêndios florestais capazes de devastar áreas rurais, infraestruturas de produção e Terras Indígenas em curtos intervalos de tempo. Adicionalmente, a navegação prejudicada no Rio Branco cria gargalos logísticos que dificultam a chegada de defensivos e combustíveis, bem como o escoamento da produção estadual.

Para conter os estragos, especialistas recomendam a suspensão rigorosa de queimadas para limpeza de terrenos, a adoção do Sistema Plantio Direto para conservar a umidade do solo, a reserva antecipada de forragem (feno e silagem) e o investimento em técnicas eficientes de reserva hídrica. Do ponto de vista da saúde pública, orienta-se que os moradores evitem a exposição direta ao sol nas horas mais quentes e mantenham a hidratação constante ao longo do dia.

Foto: William Roth – SECOM RR

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