Jacildo Bezerra – Da Redação
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu, por unanimidade, manter a taxa Selic em 15% ao ano na primeira reunião de 2026, realizada nesta quarta-feira (28). A decisão, que mantém o patamar mais elevado em quase 20 anos (desde julho de 2006), foi anunciada em meio a sinais de desaceleração da inflação, mas com o BC enfatizando a necessidade de cautela para garantir a convergência da inflação à meta.
Entidades representativas do setor produtivo reagiram com fortes críticas à manutenção dos juros nesse nível elevado. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) emitiu nota manifestando “enorme preocupação” com a decisão, argumentando que a cautela do Banco Central ignora a trajetória de queda da inflação e os graves danos causados à economia real.
“O Banco Central deveria ter iniciado o ciclo de redução dos juros há muito tempo. Ao manter a Selic em nível insustentável, o Copom prejudica a economia, aprofundando a desaceleração do crescimento. É indispensável que a flexibilização da política monetária comece já na próxima reunião”, afirmou o presidente da CNI, Ricardo Alban.

De acordo com a entidade, o IPCA acumulado em 2025 fechou em 4,26%, abaixo do teto da meta (4,5%) e inferior ao registrado em 2024 (4,83%). As expectativas de inflação, conforme o Boletim Focus, caminham para o centro da meta de 3%: projeções apontam 4% para 2026, 3,8% para 2027 e 3,5% para 2028. Além disso, as próprias estimativas do Banco Central indicam inflação de 3,1% no horizonte relevante, considerando cenários de redução de juros.
A CNI destacou que a Selic atual resulta em uma taxa de juros real de aproximadamente 10,5% ao ano, cerca de 5,5 pontos percentuais acima da taxa neutra estimada pelo próprio BC (5% a.a.). Segundo cálculos da confederação, o nível compatível com o controle da inflação e a minimização de danos ao crescimento seria próximo de 10,3% ao ano, o que deixa a Selic 4,7 p.p. acima do necessário.
No mesmo sentido, a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) classificou a decisão como prolongamento de um ciclo monetário excessivamente restritivo. A entidade apontou que o aperto monetário já mostra sinais claros de esgotamento na economia real: desde o início do ciclo de alta, o consumo perdeu força, as vendas no comércio desaceleraram significativamente e o custo do crédito pressionou empresas e famílias.
Dados da CNC revelam aumento da inadimplência e perda expressiva de dinamismo no varejo nesse período de juros elevados, o que compromete a geração de empregos e a sustentabilidade dos negócios. Embora reconheça os desafios inflacionários enfrentados pela autoridade monetária, a CNC espera redução dos juros ainda no primeiro trimestre de 2026, acompanhada de esforços para o equilíbrio fiscal, sob risco de enfraquecimento ainda maior da atividade econômica.
O Copom, em seu comunicado, sinalizou que, se o cenário esperado se confirmar, deve iniciar a flexibilização da política monetária na próxima reunião, em março. A decisão atual foi vista pelo mercado como alinhada às expectativas, mas o setor produtivo pressiona por cortes mais rápidos para aliviar o impacto sobre o crescimento e o emprego no país.













