Entidades do setor produtivo avaliam o cenário que pode surgir com a saída do ditador Nicolás Maduro do poder no país vizinho.
Jacildo Bezerra – Da Redação
A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro por forças do Exército dos Estados Unidos, ocorrida no último sábado (03), desencadeou uma nova onda de instabilidade no país vizinho, levantando preocupações sobre os reflexos na economia brasileira, especialmente no estado de Roraima, que mantém laços comerciais intensos com a Venezuela.
Nos primeiros dias da crise, comerciantes e moradores de Pacaraima, município roraimense na linha de fronteira, relataram uma queda imediata no movimento comercial e um “clima de apreensão”, com redução no fluxo de pessoas e mercadorias um dia após o ataque. A fronteira chegou a ser fechada e logo depois reaberta, assim como se reacendeu a preocupação com o crescimento do fluxo de migrantes do país vizinho e as consequências futuras para a economia local.
Roraima já recebeu mais de 1,1 milhão de venezuelanos desde 2015, sobrecarregando serviços locais e a economia regional. O Ministério da Justiça brasileiro se prepara para um possível aumento no fluxo de refugiados, com Roraima como epicentro da crise humanitária. O governo federal, que já temia uma intervenção dos EUA, vê a situação na fronteira como uma das principais preocupações, especialmente pelos impactos na migração e no comércio.
Localmente, entidades como a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de Roraima – FecomércioRR, avaliam com cautela os possíveis desdobramentos. O presidente da Fecomércio, Ademir dos Santos, disse que o reflexo da mudança no regime da Venezuela com a deposição de Nicolas Maduro será sentido em médio prazo em Roraima, com uma queda substancial no comércio bilateral através da fronteira com Santa Elena de Uairén.
Segundo Ademir, com a pretensão dos EUA em assumir o comando do governo venezuelano, os empresários estão esperando para ver o que vai acontecer, pois terá impacto na economia local. “o primeiro impacto deve acontecer na diminuição ou aumento da migração”, disse Ademir.
Ele adiantou que com o fim do embargo pelos EUA e a abertura do comércio com outros mercados, as empresas produtoras aqui no Brasil passarão a negociar diretamente com os importadores venezuelanos. “A partir da saída do Maduro os americanos passam a fazer comércio com a Venezuela e a tendência é diminuir o comércio fronteiriço”.

Ele destacou, no entanto, que essa diminuição não refletirá negativamente em Roraima, uma vez que os produtos que são vendidos para a Venezuela não são produzidos em Roraima, mas sim em outros estados. O impacto vai ocorrer nas empresas locais que reexportam, que revendem para o país vizinho.

Dados fornecidos pela FecomércioRR apontam que desde 2023 as exportações roraimenses para a Venezuela vem caindo significativamente, chegando a -42% no anos de 2025 com um total de U$$ 83.262.163. Em 2024 o total de exportações chegou a U$$ 144.563.656, uma queda de 26% em relação a 2023, que ficou em U$$ 194.737.731.

Analistas da entidade estimam que o cenário atual projeta uma diminuição de até 30% no comércio bilateral, com a estimativa de chegar a U$$ 30 milhões em 2026. Esse cenário é totalmente oposto ao que ocorreu em 2019 quando as exportações via Roraima para a Venezuela aumentaram 774%, mas desde então é só queda, o que tende a piorar.
O presidente da Câmara de Comércio Brasil-Venezuela Eduardo Oestreicher também aponta esse clima de expectativa inicial dos empresários brasileiros com os desdobramentos dessa nova fase da política venezuelana pós Maduro. Ele também destacou que os futuros investimentos das petroleiras americanas no setor da Venezuela vão ensejar a melhoria da infraestrutura de cada local com investimento em estradas, habitação, escolas, saúde, saneamento e o consequente aumento no consumo.

Ele apontou que em 2002 empresas de Roraima venderam U$$ 378 milhões para a Venezuela, e em 2025 as vendas caíram para U$$ 95 milhões, primeiramente em função dos altos custos de produção interna, mesmo com o beneficio tributário da importação, em comparação com outros países que vendem para a Venezuela, como Turquia, México e China.
Outro fator para a queda na venda é a retomada da produção em determinados setores no país vizinho, tais como frutas e verduras, cacau, aves, que não atende a demanda, mas influencia o mercado roraimense. “Além disso, iremos perder mão-de-obra, pois a saída do Maduro e os possíveis investimentos dos EUA vão criar ambiente para a volta dos migrantes”, disse Eduardo.
Em nota, a FIER esclarece que, por se tratar de uma crise iniciada há poucos dias, ainda não é possível atribuir impactos mensuráveis à economia roraimense, uma vez que reflexos econômicos não se manifestam de forma imediata.

Além disso, o período de fim de ano traz uma desaceleração natural nas atividades comerciais, o que deve ser considerado em qualquer análise. A entidade, que atua na defesa do setor produtivo via Sistema Indústria, acompanha os cenários, embora crises internas em outros países estejam fora de seu escopo direto. Ainda assim, a FIER permanece atenta aos efeitos potenciais sobre a economia local.
Dados recentes da balança comercial fornecidos pela FIERR reforçam a endência de queda nas exportações de Roraima para a Venezuela no segmento. As exportações totais do estado em novembro de 2025 somaram US$ 35,05 milhões, uma queda de 30,73% em relação a outubro (US$ 50,60 milhões), mas com alta de 84,71% no comparativo anual frente a novembro de 2024 (US$ 18,98 milhões).
No acumulado de janeiro a novembro de 2025, o valor chegou a US$ 225,03 milhões, representando um recuo de 10,67% ante o mesmo período de 2024. Os principais produtos exportados incluem soja (62,97%, US$ 22,07 milhões), óleo de soja em bruto (9,44%, US$ 3,31 milhões) e resíduos sólidos da extração de óleo de soja (6,75%, US$ 2,37 milhões).
Entre os destinos das vendas da indústria roraimense, a China lidera com 62,77% (US$ 22,00 milhões), seguida pela Venezuela com 11,12% (US$ 3,90 milhões) e Guiana com 9,83% (US$ 3,45 milhões). Os números de dezembro de 2025, que serão divulgados nesta semana pela Comex, permitirão uma comparação mais precisa para avaliar eventuais impactos iniciais da crise.
Enquanto os desdobramentos da captura de Maduro se desenrolam, com possíveis mudanças no regime venezuelano, Roraima se prepara para cenários variados, desde um aumento na migração até perturbações no comércio bilateral. Entidades econômicas e autoridades locais enfatizam a necessidade de monitoramento contínuo para mitigar riscos à já frágil recuperação pós-pandemia na região.









