CNI avalia que redução da taxa de juros é incapaz de reverter prejuízos à economia

Medida é incapaz de interromper desaceleração econômica, destravar investimentos e reduzir endividamento

A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, nesta quarta-feira (18), de reduzir a taxa Selic em 0,25 ponto, é correta, mas insuficiente, avalia a Confederação Nacional da Indústria (CNI). A medida ainda não interrompe a queda da atividade econômica, não destrava investimentos, nem reduz o endividamento – sintomas da política monetária excessivamente restritiva. 

“A inflação está em franca desaceleração e as expectativas de mercado para a alta dos preços seguem dentro do intervalo de tolerância da meta. Isso, por si só, já justificaria queda mais acentuada da taxa básica de juros. Essa cautela do Banco Central ainda é excessiva e seguirá penalizando ainda mais nossa economia”, argumenta o presidente da CNI, Ricardo Alban.   

Alban defende que o Banco Central intensifique a magnitude dos cortes na Selic já na próxima reunião do Copom, prevista para o fim de abril. “Isso é necessário para viabilizar melhores condições de investimento às empresas, reduzir o endividamento das famílias e recolocar a economia em trajetória de crescimento. A flexibilização mais expressiva dos juros não é apenas desejável: trata-se de condição imprescindível para recuperar a produtividade nacional e o bem-estar social”, completa Ricardo Alban.   

Inflação sob controle, espaço para agir 

A inflação segue controlada e converge para o centro da meta. Vale lembrar que o IPCA acumulado nos últimos 12 meses até fevereiro recuou para 3,81%, ante 4,44% no mês anterior. Além disso, as expectativas do mercado se mantêm dentro do intervalo de tolerância da meta, mesmo em meio a fatores externos e temporários, como a recente alta nos preços do petróleo decorrente de conflitos internacionais. Segundo a mais recente Pesquisa Focus, as projeções para a inflação são de 4,1% em 2026, 3,8% em 2027 e 3,5% em 2028.  

Agora, com a Selic em 14,75% a.a., a taxa de juros real situa-se em 10,4% a.a., 5,4 p.p. acima da taxa neutra — aquela que não estimula nem desestimula a atividade econômica — estimada pelo próprio BCB em 5% a.a. A CNI calcula que a taxa de equilíbrio, capaz de conciliar pleno emprego e estabilidade de preços, deveria aproximar-se de 10,1% a.a., o que indica que a Selic atual é 4,6 p.p. mais restritiva do que o necessário para o controle da inflação.   

Apesar do corte na Selic, o Brasil tem os maiores juros reais entre 17 países selecionados, de acordo com levantamento do Bradesco, referente a fevereiro de 2026. A CNI acredita que apesar das incertezas causadas pelo conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, o nível contracionista dos juros oferece ao Copom margem considerável para implementar cortes mais robustos, sem comprometer a estabilidade de preços.  

Juros elevados: travas da economia 

A Selic está em terreno contracionista há 50 meses, produzindo efeitos negativos sobre o crescimento econômico. Não à toa, o PIB cresceu 2,3% em 2025, segundo o IBGE, abaixo dos 3,4% registrados em 2024 e o resultado mais fraco desde a recessão provocada pela pandemia em 2020. O consumo das famílias perdeu fôlego, passando de expansão de 5,1% em 2024 para apenas 1,3% em 2025. Já os investimentos desaceleraram de 6,9% para 2,9% no mesmo período.  

A política monetária em curso também intensificou o endividamento das famílias, corroendo os orçamentos domésticos e desestimulando o consumo. A parcela da renda anual comprometida com dívidas bancárias subiu de 47,7%, em dezembro de 2023, para 49,7%, em dezembro de 2025, segundo o Banco Central. A inadimplência de pessoas físicas saltou de 3,7% em janeiro de 2024 para 5,2% em janeiro de 2026.   

Pressão nas empresas 

Além disso, os juros elevados têm pressionado o caixa das empresas, impulsionando um volume recorde de pedidos de recuperação extrajudicial, à medida que as companhias tentam reestruturar dívidas, tornadas insustentáveis pelo custo do crédito. Os casos mais recentes, envolvendo importantes corporações brasileiras, indicam negociações de dívidas superiores a R$ 100 bilhões, um recorde histórico.  

Agência de Notícias da Indústria

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