Fiesp debate geopolítica e o papel estratégico do Brasil no mundo

Seminário reuniu especialistas para analisar transformações globais nas relações diplomáticas, no comércio e na segurança, assim como ameaças e oportunidades para a indústria e a economia nacionais

O Brasil tem papel fundamental no enfrentamento de desafios globais, especialmente na transição ecológica e na sustentabilidade. O país detém vastas reservas de recursos naturais – como terras raras – estratégicas para a transição energética. Isso coloca o Brasil como ator relevante no cenário internacional, mas para consolidar esse protagonismo é necessário assumir uma postura mais ativa no multilateralismo e buscar relações mais equilibradas com diferentes nações.

Foi com esse pano de fundo que a Fiesp promoveu, na quinta-feira (4/9), o seminário “A nova geopolítica e o papel do Brasil no mundo”, que reuniu especialistas e líderes para debater transformações na governança global do comércio, da economia e da segurança.

O evento teve cinco painéis: Multipolaridade e fragmentação da ordem internacional; Tensionamentos geopolíticos; Consequências da insegurança comercial; Crise climática e sustentabilidade e Disputas por recursos naturais estratégicos e domínio tecnológico.

Multilateralismo enfraquecido – Na abertura, Francesconi Júnior, presidente em exercício do Ciesp e primeiro diretor-secretário da Fiesp, destacou que o mundo vive transformações profundas e aceleradas, com a ordem internacional em fragmentação, marcada pela ascensão da China, pelo reposicionamento da Europa e a tentativa dos Estados Unidos de reafirmar protagonismo.

Esse contexto, segundo ele, intensifica rivalidades, reduz a eficácia das instituições multilaterais e tensiona o direito internacional. “O Brasil, diante desse ambiente, precisa avaliar com clareza como preservar sua autonomia estratégica e projetar seus interesses”, afirmou.

Francesconi lembrou ainda que o aumento do protecionismo, exemplificado pelas novas tarifas americanas, e a disputa comercial entre Estados Unidos e China desorganizam cadeias globais de valor. Apesar dos riscos, há oportunidades: “O Brasil, como fornecedor confiável de alimentos, energia e minerais críticos, pode diversificar mercados e aprofundar parcerias com América Latina, África e Ásia”.

Pedro Wongtschowski, presidente do Conselho Superior de Inovação e Competitividade (Conic) da Fiesp, ressaltou que a indústria brasileira já enfrenta desafios como custo financeiro, inovação, digitalização e acesso a insumos competitivos. Mas, hoje, a viabilidade do setor depende também de questões macroeconômicas e geopolíticas. “A ideia do seminário foi aprofundar como o posicionamento diplomático do Brasil impacta a competitividade industrial”, explicou.

Na mesma linha, Jackson Schneider, presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior e Relações Internacionais (Coscex) da Fiesp, afirmou que o mundo vive uma transição marcada pelo enfraquecimento do multilateralismo, crescimento do protecionismo, tensões bélicas e reconfiguração da globalização.

“Antes, o comércio global se orientava pela eficiência. Agora, o entorno geopolítico será determinante. Precisamos de um projeto de relacionamento externo de Estado, e não de governo”, concluiu.

Diversificar é a chave – O primeiro painel debateu a transição para um mundo multipolar, com a ascensão da China, o declínio relativo dos Estados Unidos e o reposicionamento da Europa. A mesa foi presidida pelo ex-embaixador do Brasil na Itália, Andrea Matarazzo, e contou com a participação de Alexandre Parola, embaixador do Brasil no Marrocos, e do Almirante Eduardo Leal Ferreira, da Marinha do Brasil.

Parola destacou que falava em caráter pessoal, e não em nome do Itamaraty, e descreveu o cenário atual como “mais fragmentado, interdependente e policêntrico”. Segundo ele, trata-se de um mosaico de centros de poder, com disputas, mas também com espaços de cooperação, inovação e adaptação.

Ele sugeriu caminhos para empresas e indústrias: diversificação das cadeias de suprimento, investimento em inteligência regulatória e geopolítica, fortalecimento da resiliência organizacional, inovação verde e digital, maior presença internacional e agregação de valor aos produtos primários. “Esses pontos são eixos de reflexão que podem orientar estratégias e transformar riscos em oportunidades”, explicou.

Para o almirante Eduardo Leal Ferreira, o Brasil ocupa uma posição geopolítica singular justamente por reunir três recursos estratégicos pelos quais o mundo vai à guerra: energia, água e território. “Essas circunstâncias representam uma grande oportunidade para o Brasil estabelecer redes de cooperação e segurança que garantam a promoção dos interesses nacionais e contribuam para a estabilidade e a resolução de litígios internacionais.”

Segurança – Os tensionamentos geopolíticos foram o tema do segundo painel do evento, em que se destacou o debate em torno da segurança internacional. Na mesa, presidida por Pedro Wongtschowski, do Conselho Superior de Inovação e Competitividade (Conic) da Fiesp, os convidados se debruçaram em questões relacionadas ao controle de territórios, recursos naturais, tecnologias críticas e como a falta de segurança pode ser um empecilho às pretensões do Brasil.

O professor Alberto Pfeifer, que coordena o Grupo de Análise de Estratégia Internacional em Defesa, Segurança e Inteligência da Universidade de São Paulo (DSI-USP), analisou o recente encontro entre potências do Oriente e afirmou ser parte de um rearranjo da nova ordem mundial.

“É evidente que China, Rússia e Índia buscam estabilidade e acesso a recursos estratégicos, dos quais o Brasil é naturalmente detentor. Temos água, terras produtivas, insolação, capacidade agrícola e abundância de energia e minerais. Mas o avanço do crime organizado pode colocar tudo isso a perder”, alertou.

O almirante de esquadra da Marinha do Brasil, Ilques Barbosa Junior, destacou que segurança nacional é um conceito amplo, que vai além da defesa militar. “Ela envolve segurança alimentar, energética, climática e econômica. Se não tratarmos a questão de segurança de forma integral, seremos penalizados”, disse, ressaltando que o país precisa avaliar com seriedade os impactos do cenário internacional sobre seus próprios interesses.

Já o cientista político Sergio Fausto chamou atenção para a internacionalização do crime organizado como uma das maiores ameaças contemporâneas. Para ele, esse é um tema que deve ser incorporado de maneira estruturada à agenda democrática do Brasil.

“Não se trata apenas de um problema lateral de segurança pública. É central para o desenvolvimento e para a própria preservação da democracia”, afirmou, ao defender políticas que combinem eficiência, transparência e controle social.

Consequências da insegurança comercial – Presidido por Jackson Schneider o terceiro painel trouxe para o debate Christopher Garman, diretor-geral para as Américas do Eurasia Group; Otaviano Canuto, senior fellow do Policy Center for the New South; e Yi Shin Tang, livre-docente do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IRI-USP).

Eles discutiram as tensões comerciais, especialmente entre os Estados Unidos e outras potências, além do avanço do protecionismo, fatores que impactam os fluxos de comércio e reconfiguram as cadeias globais de valor.

Para Canuto, ainda é cedo para avaliar se as tarifas impostas durante o governo Donald Trump terão êxito como estratégia de substituição de importações pela produção doméstica, em tentativa de reduzir o déficit comercial norte-americano.

“Os acordos comerciais dos Estados Unidos com União Europeia, Japão, Vietnã e Indonésia vieram em julho, assim como os tarifaços sobre Brasil e Índia em agosto. As tarifas efetivas para o segundo semestre e seus impactos nas importações do país, inclusive as diferenças em relação às aplicadas sobre a China, trarão novos deslocamentos na composição geográfica das compras externas norte-americanas”, afirmou.

Garman destacou que o nível das tarifas impostas pelos Estados Unidos está muito elevado e que esse cenário deve se prolongar. Para ele, o Brasil precisa agir com cautela. “Tem que, pelo menos, conter o estrago, não retaliar, e buscar intensificar laços comerciais com outros parceiros para reduzir sua dependência e diversificar o fluxo de comércio”, defendeu.

Ele reforçou ainda que o setor privado deve se adaptar a um mundo em que os fluxos comerciais tendem a se organizar de forma mais regionalizada, em torno de polos como União Europeia, China, Índia e Estados Unidos.

Na visão de Yi Shin Tang, a atual conjuntura global é marcada por insegurança, incerteza e tensões, o que fragiliza as relações de comércio e de investimentos. “Na geoeconomia, cada Estado, em nome da sua segurança e estabilidade, tende a buscar apenas parceiros comerciais e alianças que considere confiáveis”, explicou.

Adição energética – O Brasil reúne condições estratégicas para liderar o mundo na transição energética, na opinião de especialistas que participaram do quarto painel do evento. Entretanto, o país precisa resolver questões de infraestrutura, governança e ampliar a articulação com países que podem contribuir para o combater as mudanças climáticas.

A ex-ministra do Meio Ambiente Izabella Teixeira, que é copresidente do International Resource Panel da ONU e membro do Conselho Administrativo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), afirmou que a raiz da questão climática está na dependência da matriz energética global de combustíveis fósseis.

“Hoje, 82% da energia mundial ainda vêm de fontes fósseis. Nunca se investiu tanto em renováveis e, ao mesmo tempo, em fósseis como em 2024. O problema não é de substituição, mas de adição de energia”, pontuou.

Ela destacou ainda a dificuldade de engajamento da sociedade brasileira no tema, que costuma reagir apenas diante de tragédias, e defendeu que o país transforme seu potencial em impacto efetivo no cenário internacional.

Ricardo Mussa, chair da Sustainable Businesses COP 30, ressaltou a oportunidade histórica do Brasil diante da redução dos custos de geração de energia, o que pode atrair investimentos estrangeiros. Para que isso ocorra, entretanto, é essencial buscar parcerias estratégicas com todos os países, mas sem comprometer relações diplomáticas com antigos parceiros.

“Em relação aos Estados Unidos, o ideal é atravessar esse momento sem tumultuar a relação, fazendo negócios com outros países, sim, mas sem provocações. Houve uma clara mudança geopolítica no mundo, que revela uma China que vem se posicionando muito bem em tecnologias de energia solar, eólica e de baterias”, observou.

Participando de forma on-line, Angelo Gurgel, pesquisador do MIT e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), concordou que o Brasil possui uma das energias renováveis mais baratas do mundo, ao menos na sua geração, e disse que a maior parte dos projetos de energia limpa já é mais competitiva que projetos que utilizam combustíveis fósseis.

No entanto, ele chamou a atenção para gargalos na rede elétrica e para dificuldades de execução das políticas públicas. “Mais importante do que ter a política ambiental é medir seus impactos e garantir que cumpra o que se propõe”, destacou.

Disputas tecnológicas e recursos estratégicos – Por fim, o quinto painel do encontro abordou a centralidade da disputa tecnológica na nova ordem geopolítica, destacando semicondutores, inteligência artificial e terras raras como vetores de poder global. Os debatedores ressaltaram que o Brasil, embora não esteja no centro dessa corrida, pode construir um posicionamento estratégico se investir em pesquisa, inovação e aproveitamento sustentável de seus recursos.

Na opinião do ex-secretário executivo do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, Carlos Américo Pacheco, a ponta de lança da rivalidade entre Estados Unidos e China inclui semicondutores e inteligência artificial.

“Não se trata apenas de uma disputa entre Estados nacionais, mas também entre sete megacorporações globais. No caso dos semicondutores, é impossível que um país domine toda a cadeia de produção. Já na inteligência artificial, a disputa é ainda mais acirrada, porque ela nasceu nos EUA, mas a China está na corrida para se aproximar”, afirmou.

O professor Luciano Coutinho, do Instituto de Economia da Unicamp e ex-presidente do BNDES, chamou atenção para a relevância das terras raras e afirmou que elas são importantes porque permitem adicionar qualidades especiais à metalurgia, tanto de sais quanto de metais.

“Esses minerais possuem propriedades magnéticas e luminescentes, sendo fundamentais para tecnologias modernas como os LEDs de luz branca, além de poder produzir ímãs poderosíssimos e duráveis. São absolutamente essenciais para a miniaturização de motores”.

Por fim, o professor Glauco Arbix da USP, observou que o Brasil tem potencial para avançar nesse campo se houver investimento coordenado em pesquisa e inovação. “Podemos dar um passo importante, aproveitando nossa base de pesquisadores em universidades e empresas. É preciso incentivar consórcios que unam grandes companhias com capacidade de acelerar esse processo, de forma limpa e sustentável. Se a exploração não for feita com responsabilidade ambiental, é melhor não fazer”, finalizou o especialista em teoria da inovação.

Fonte: Lúcia Rodrigues e Alex de Souza – FIESP

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