Pesquisa inédita mostra avaliação dos empresários industriais sobre as condições de infraestrutura do país. Instituição apresenta prioridades para o setor

O transporte é apontado por 75% dos empresários industriais brasileiros como o principal gargalo de infraestrutura. É o que mostra pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), realizada com 2.500 representantes de médias e grandes empresas das cinco regiões do país. O levantamento integra a publicação inédita Panorama da Infraestrutura: Principais Demandas da Indústria Brasileira, divulgada nesta quinta-feira (5) pela CNI.
A avaliação da infraestrutura pelos industriais, no entanto, não é homogênea entre os diferentes setores. Aeroportos são avaliados positivamente por 64% dos empresários, seguidos por telecomunicações (62%) e energia elétrica (60%). O saneamento básico aparece na sequência, com 48%, à frente de portos (44%), rodovias (38%), hidrovias (27%) e ferrovias (21%).
Além de retratar as condições da infraestrutura brasileira sob a perspectiva dos empresários industriais, o documento reúne propostas nacionais
já apresentadas pela CNI aos pré-candidatos à Presidência da República
e 500 demandas locais identificadas pelas federações das indústrias como fundamentais para a modernização do setor.
O presidente da CNI, Ricardo Alban, destaca que o levantamento revela uma percepção crítica dos empresários sobre diferentes áreas da infraestrutura brasileira e ressalta o impacto dessas deficiências sobre a competitividade do país.
“Existe uma grande insatisfação dos empresários com algumas áreas da infraestrutura brasileira. O levantamento aponta problemas como rodovias em más condições, trechos ferroviários abandonados, limitações de acesso e capacidade nos portos, falhas no fornecimento de energia, dificuldades de conectividade à internet e restrições para o tratamento e a destinação de efluentes”, afirma Alban. “São gargalos que encarecem a produção, ampliam o Custo Brasil e comprometem a competitividade da indústria brasileira”, acrescenta o presidente da CNI.

O diretor de Relações Institucionais da CNI, Roberto Muniz, avalia que as diferenças na percepção dos empresários refletem trajetórias distintas de investimento, modernização e aperfeiçoamento regulatório entre os segmentos. Em um cenário de restrição fiscal, ele destaca a importância do capital privado para a modernização da infraestrutura, mas ressalta que os resultados dependem também de condições regulatórias e institucionais que favoreçam a expansão e a melhoria dos serviços.
“Diante da limitação dos recursos públicos, o capital privado é cada vez mais importante para financiar a expansão e a modernização da infraestrutura brasileira. Telecomunicações e aeroportos mostram como a combinação entre investimento privado e ambientes regulatórios mais maduros, com regras mais estáveis e modelos consolidados, pode contribuir para expandir a infraestrutura e melhorar a qualidade dos serviços prestados”, afirma o diretor.
Muniz também chama atenção para o saneamento básico, setor historicamente marcado por elevados déficits de infraestrutura, mas que começa a apresentar uma mudança de trajetória, já percebida pelos empresários na pesquisa. Para ilustrar esse avanço, o diretor menciona dados da Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base (ABDIB) sobre os investimentos e da Associação Brasileira das Empresas de Saneamento (ABCON) sobre a expansão da atuação privada nos municípios. Ele destaca, ainda, que, mesmo com o crescimento da participação privada, os recursos públicos continuam essenciais para a expansão e a universalização dos serviços.
“O saneamento é um exemplo dessa transformação. O novo marco legal, aprovado em 2020, favoreceu a ampliação dos investimentos privados, cuja participação passou de 18% em 2020 para 52% em 2024. A atuação das empresas privadas também avançou de 389 cidades em 2019 para 2.720 em junho de 2026, alcançando 48,8% dos municípios brasileiros”, explica. “É importante ressaltar que, mesmo com o crescimento da participação privada, os investimentos públicos continuam essenciais. Os recursos públicos e privados não competem entre si, mas se complementam e são fundamentais para acelerar a universalização dos serviços”, acrescenta Muniz.
A experiência do setor ferroviário, contudo, mostra que a simples exploração privada dos ativos de infraestrutura, isoladamente, não é suficiente. Embora as concessionárias privadas sejam responsáveis por 99% da malha ferroviária brasileira, o setor ainda convive com linhas antigas, trechos abandonados, sem operação ou com baixa utilização e dificuldades para ampliar o acesso e o aproveitamento da infraestrutura existente.
Essa situação é observada pelos industriais na pesquisa da CNI: apenas 21% realizam avaliações positivas em relação às ferrovias brasileiras – quadro mais crítico entre os modais.
O superintendente de Infraestrutura da CNI, Wagner Cardoso, diz que a avaliação ruim das ferrovias reflete problemas históricos que limitaram a expansão e o melhor aproveitamento da malha. A rede ferroviária brasileira, que chegou a cerca de 37 mil quilômetros na década de 1950, conta hoje com aproximadamente 30 mil quilômetros, dos quais 12 mil sem qualquer operação – abandonados ou 100% ociosos.
“Apesar da predominância da operação privada e dos avanços trazidos pelo novo marco ferroviário, ainda temos trechos abandonados, sem operação ou com baixa utilização. Precisamos avançar nessa agenda de obras e regulação, especialmente em questões como direito de passagem, acesso à malha, disponibilidade de capacidade e interoperabilidade, mas também tirar do papel os projetos de concessão e autorização e transformá-los efetivamente em novas ferrovias”, afirma Cardoso.
Dependência do transporte rodoviário
A pesquisa evidencia a forte dependência da indústria em relação ao transporte rodoviário. O modal é utilizado por praticamente todas as empresas entrevistadas: 98% afirmam recorrer às rodovias para o escoamento da produção.
Além de amplamente utilizado, o transporte rodoviário é empregado pela indústria em percursos de longa distância. Entre as empresas entrevistadas que utilizam o modal, 23% transportam seus produtos por mais de 1.600 quilômetros; 9%, entre 1.200 e 1.600 quilômetros; 17%, entre 800 e 1.200 quilômetros; 26%, entre 400 e 800 quilômetros; e 24%, até 400 quilômetros.
Para a CNI, o uso do transporte rodoviário em trajetos extensos é um dos grandes problemas da logística brasileira e ajuda a explicar a percepção dos empresários sobre os elevados custos de transporte no país.
A entidade recomenda que o caminhão seja usado prioritariamente em percursos curtos e médios e integrado às ferrovias, hidrovias e à cabotagem nos deslocamentos mais longos. Para a instituição, cada modal deve ser utilizado de acordo com sua vocação para reduzir custos logísticos, acidentes e emissões de gases de efeito estufa.
A pesquisa mostra que há espaço para essa mudança. Entre os empresários que utilizam o transporte rodoviário, 45% afirmam que estariam dispostos a transferir, ainda que parcialmente, suas cargas para outros modais caso houvesse condições adequadas de infraestrutura. Nesse grupo, 67% apontam as ferrovias como alternativa, 21% indicam o transporte aéreo e 12%, o aquaviário.
A redução de custos é a principal motivação para uma eventual mudança de modal, mencionada por 82% dos executivos. Também aparecem entre os fatores a redução de sinistros nas rodovias (43%), a diminuição das emissões de gases (33%) e a menor incidência de roubos de cargas (26%).
Custos de transporte e energia pesam sobre a indústria
Os custos de energia e transporte estão entre os que mais pressionam a indústria, segundo os empresários entrevistados. A conta de luz é considerada alta ou muito alta por 81% dos executivos, enquanto 75% fazem a mesma avaliação sobre os custos de transporte. Segundo 91% dos entrevistados, os custos logísticos subiram nos últimos dez anos. Para 70%, o aumento foi expressivo e resultou em perda de competitividade.
Para o especialista em Infraestrutura da CNI, Ramon Cunha, o encarecimento desses dois componentes tem efeitos que ultrapassam os custos diretos das empresas, uma vez que energia e transporte estão presentes em praticamente todas as cadeias produtivas. Quando se tornam mais caros, pressionam os valores de produção e podem repercutir sobre os preços dos bens consumidos pela população.
“Energia e transporte são custos básicos para a atividade produtiva. Quando ficam mais caros, o impacto não se restringe à indústria: ele se espalha pelas cadeias produtivas, encarece as matérias-primas e o deslocamento das mercadorias e chega ao preço final dos produtos. Por isso, reduzir essas despesas é fundamental para aumentar a competitividade da indústria brasileira”, destaca Cunha.
No transporte, a CNI aponta que o custo elevado resulta de uma combinação de fatores, entre os quais estão deficiências na infraestrutura, a forte dependência do modal rodoviário e custos associados ao ambiente regulatório. Entre os pontos de atenção da instituição estão a Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas (PNPM-TRC) e as mudanças nas regras de contratação do seguro do transporte de cargas.
Na energia elétrica, por sua vez, o alto preço tem como explicação principal o peso dos encargos, subsídios e tributos sobre a tarifa. Esses componentes representam cerca de 44% da conta de luz, sendo 18% referentes a encargos e 26% a impostos. A participação dos encargos e subsídios no custo final da tarifa passou de 2,9%, em 2017, para 18%, em 2025.
“No transporte, precisamos enfrentar os gargalos logísticos, tornar a matriz mais equilibrada e evitar medidas regulatórias que ampliem desnecessariamente os custos do embarcador. Na energia, é necessário garantir maior qualidade e confiabilidade no fornecimento, além de conter o crescimento dos encargos e subsídios que pesam sobre a tarifa. Avançar nessas agendas é fundamental para reduzir o custo de produzir no Brasil”, afirma Ramon Cunha.
Medidas para avançar
Além do diagnóstico sobre as condições da infraestrutura brasileira, construído a partir de dados do setor e da percepção de 2.500 empresários industriais, o Panorama da Infraestrutura: Principais demandas da Indústria brasileira apresenta caminhos para enfrentar os gargalos identificados. O documento reúne propostas nacionais da CNI, entregues aos pré-candidatos à Presidência da República, e 500 intervenções prioritárias apontadas pelas federações estaduais das indústrias, abrangendo rodovias, ferrovias, portos, hidrovias, aeroportos, energia, saneamento, telecomunicações, entre outras áreas.
No documento, a CNI traz um retrato das condições de infraestrutura do país e indica ações para mitigar seus principais problemas e avançar na modernização do setor. O objetivo da publicação é contribuir para a redução do déficit desse setor, aumentando a competitividade da indústria brasileira e criando melhores condições para o crescimento e o desenvolvimento econômico do país.
Para o presidente do Conselho de Infraestrutura da CNI (Coinfra) e da Federação das Indústrias do Estado do Pará (FIEPA), Alex Carvalho, o levantamento das intervenções prioritárias reforça a importância de considerar as particularidades regionais no planejamento dos investimentos em infraestrutura.
“Os desafios de infraestrutura são diferentes em cada região do Brasil. Ao reunir as prioridades identificadas pelas federações das indústrias, conseguimos mostrar onde estão os principais gargalos que afetam a produção e o escoamento de mercadorias. É fundamental que essas demandas sejam consideradas no planejamento e na execução dos investimentos, para que a infraestrutura avance de acordo com as necessidades reais do setor produtivo”, destaca Carvalho.
A pesquisa da CNI foi realizada pela Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados, que entrevistou executivos de 2.500 empresas industriais de médio e grande portes, nas 27 Unidades da Federação. A margem de erro da pesquisa é de 2,5 pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
Agência de Notícias da Indústria





