Intenção de Consumo das Famílias segue em alta em junho mas confiança no mercado de trabalho recua

Intenção de Consumo das Famílias segue em alta em junho mas confiança no mercado de trabalho recua

ICF avançou apenas 0,1%, contido por cautela no índice “futuro do emprego”, que diminuiu 0,2% em relação a maio e 6,3% na comparação com 2025

O ritmo de crescimento da Intenção de Consumo das Famílias (ICF) registrou, em junho, a sua expansão mais modesta desde o início da trajetória de alta, em novembro passado, com avanço de apenas 0,1% após o desconto dos efeitos sazonais. De acordo com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), embora o indicador geral tenha alcançado 105,5 pontos — renovando o maior nível ajustado desde março de 2015 (107,8 pontos) —, o avanço generalizado da confiança foi freado por uma crescente cautela em relação ao futuro do emprego. A Perspectiva Profissional teve sua segunda queda mensal consecutiva (-0,2%) e manteve a retração frente ao ano passado (-6,3%), captando os impactos de ligeiros incrementos na taxa de desocupação nos últimos três meses.

Esse recuo nas expectativas contrasta com a realidade atual do mercado de trabalho, que permanece em patamar historicamente favorável, com baixa desocupação geral e avanço nos rendimentos. O componente de Emprego Atual obteve um avanço singelo de 0,2% no mês e sustentou a variação positiva de 1,8% na comparação anual. A maior parte das famílias brasileiras (42,2%) ainda percebe um momento mais seguro para o trabalho, evidenciando que o receio está concentrado no médio prazo, e não no cenário presente.

A dinâmica relação entre o mercado de trabalho e a intenção de consumir no futuro é a chave para entender os resultados desta pesquisa, avalia o presidente do Sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros. “O trabalhador brasileiro reconhece a força do mercado de trabalho no presente, mas a deterioração das expectativas futuras reflete um receio com as viradas de cenário no médio e longo prazo”, avalia Tadros. “Para que a confiança se consolide em consumo real e impulsione o PIB, as famílias e o setor produtivo precisam de um ambiente de mais estabilidade e previsibilidade”, completa.

A prudência com o futuro profissional, somada a um ambiente econômico de juros elevados, faz com que o Nível de Consumo Atual permaneça abaixo da linha de satisfação de 100 pontos, aos 92,8 pontos. Apesar disso, as decisões futuras tendem a ser gradualmente destravadas. A Perspectiva de Consumo para os próximos meses intensificou seu ganho mensal ao avançar 0,5% e manteve crescimento de 2,9% em relação ao ano passado. Este otimismo é amparado pela melhora de fatores essenciais, como a desinflação e a expectativa de continuação da redução da taxa Selic.

Intenção de compra de bens duráveis lidera índice no comparativo anual

O grande motor do comércio no momento tem sido o alívio de preços focado em bens de maior valor agregado. Em maio, o grupo de bens duráveis registrou deflação de 0,08%, contra uma alta de 0,58% do IPCA geral. No acumulado de 12 meses, a diferença é ainda maior: inflação de apenas 0,78% para esse segmento contra 4,72% do indicador oficial. Esse cenário permitiu que o Momento para Compra de Bens Duráveis saltasse 1,2% na comparação mensal e expressivos 20,3% em relação a junho do ano anterior, liderando as decisões de compra das famílias.

“O consumidor percebeu uma janela de oportunidade com a deflação de alguns bens duráveis observada ao longo dos meses, chegando a um patamar mais confortável do que os 4,72% do IPCA geral. Esse segmento de maior valor agregado é historicamente o mais exposto às oscilações do câmbio e ao preço de commodities vitais, como o petróleo, que sofreu forte instabilidade recente devido ao conflito internacional. Embora o Brent tenha dado trégua em junho, o rastro dessa volatilidade externa ainda ecoa na tomada de decisão das famílias”, complementa o economista-chefe da CNC, Fabio Bentes.

Recorte por renda No confronto geral com junho de 2025, o índice bruto da ICF acumulou alta de 3,2%. A dinâmica anual continuou sendo puxada pelas famílias de menor renda (até 10 salários mínimos), que avançaram 3,6%. Esse fôlego é explicado pelo diferencial inflacionário do INPC, que acumulou alta de 4,42% em 12 meses até maio, situando-se abaixo do IPCA geral. No entanto, refletindo a desaceleração geral, esse grupo de menor renda registrou queda mensal de 0,1% na intenção de consumo, interrompendo uma sequência de sete meses de alta em virtude do recuo de 0,6% no indicador que mede a perspectiva profissional dos entrevistados. Em contrapartida, as famílias com mais de 10 salários mínimos mostraram avanço de 0,5% no mês, impulsionadas por maior otimismo no mercado de trabalho.

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